Quatro anos de saudade. Quatro anos de perguntas sem resposta. Quatro anos de uma justiça que teima em não chegar. Este é o resumo do calvário vivido por Carlos Eduardo Blimblem (foto), pai de Jennifer Eduarda da Cruz Blimblem (foto), uma jovem de 17 anos, cuja vida foi brutalmente interrompida em setembro de 2021. Seu corpo foi encontrado nu, em estado de decomposição e com perfurações, às margens de uma estrada rural de Avaré, seis dias após seu desaparecimento.
Às vésperas do triste aniversário de quatro anos do crime que permanece sem solução, Carlos Eduardo procurou o A Voz do Vale, revelando um pai dilacerado pela dor, descrente das autoridades e transformado em um nômade pelo circo, sua única forma de escapar dos fantasmas que assombram Avaré.
A Fuga da Dor
“Vai fazer quatro anos já esse mês. É um sentimento dolorido. Tanto é que eu não estou mais em Avaré. Estou muito longe. Separei da esposa. Eu não quero mais nem passar perto de Avaré”, disse ele, com sua voz carregada de uma mágoa profunda que o tempo não curou.
A decisão de deixar para trás a cidade onde tudo aconteceu foi radical. Hoje, ele trabalha com o circo, um refúgio itinerante. “Sim, é a única solução. O circo distrai. Cada mês eu estou em uma cidade diferente. Agora, atualmente, eu estou em Sumaré. Estamos para ir para Itu, aí penso em visitar o túmulo dela em Avaré”.
A suspeita que doeu mais que a perda
Além da luta pela justiça, Carlos carrega a ferida de ter sido, ele próprio, alvo de desconfiança da polícia. Dias após o enterro da filha, a Polícia Civil apareceu em sua casa. “Eu estava arrumando o portão. A polícia foi lá em casa. Ele revirou toda a minha casa procurando arma, falando que eu tinha arma. Minha filha tinha acabado de ser enterrada. E eles tiveram a coragem de ir lá e ver de atrás de quem matou a menina. Praticamente estavam me acusando que eu tinha matado a menina. Que isso, minha filha, que eu mais amava desse mundo”, relata, ainda incrédulo.
Relembrando o fatídico 24 de setembro de 2021, Carlos conta que a rotina da família explicou a demora em registrar o desaparecimento, um ponto frequentemente destacado no caso. “Quando eu cheguei do serviço, ela já tinha saído. Esse negócio de Feirinha da Lua, foi para aqueles lados lá. Geralmente, ela saía, ficava na casa das amigas. Levava dois, três dias para voltar para casa. Então, por isso que nós não fizemos o boletim de ocorrência. Só fizemos depois que a gente começou a sentir mesmo que ela não ia aparecer”.
Sobre a informação da polícia de que Jennifer saiu sem o celular, o pai confirma que era um comportamento comum. “Ela não saía com o celular, porque ela tinha medo de perder o celular. Como ela tinha ido para essa Feirinha da Lua, a gente ficou com medo de perder o celular. Por isso que ela não levou o celular”.
A avaliação das investigações: Abandono e Descrença
Quatro anos depois, a sensação da família é a de total abandono. Carlos não tem dúvidas ao avaliar o trabalho da polícia. “A polícia não está nem aí. Tanto que não foram eles que acharam o corpo da menina. Quem achou foi o dono da fazenda. Eles não querem saber não”. Questionado sobre suspeitas ou teorias que não tenham sido investigadas, a resposta é de um cansaço profundo: “Não sei te responder sobre isso. Eu sei que eu nem aí não estou mais”.
A saudade que substituiu a incerteza
Para ele, a incerteza sobre os detalhes do que aconteceu já foi substituída por uma dor mais simples, porém avassaladora: a falta da filha. “Então, só fica saudade. Só sei que eu não fui nem no enterro. Eu não ia poder nem ver ela (no caixão)”.
O que mantém Jennifer viva são as lembranças dos momentos simples e felizes. “Fica só a lembrança das coisas boas dela. A imagem dela sorrindo. Eu levantava cedo todo dia, pois ela tomava café comigo. São essas lembranças que ficam”, disse, emocionado.
Um apelo à Justiça e uma entrega a Deus
Seu apelo às autoridades já não é mais um grito de raiva, mas um suspiro de resignação. Sua mensagem para quem tem qualquer informação está mesclada com uma entrega espiritual. “Entreguei na mão de Deus. Como eu falei, não quero pisar em Avaré por nada nesse mundo. E estou eu aí pelo mundo afora. O sentimento aí… Todo lugar que eu olhava eu via ela. Não sei o que dizer”, disse com a voz embargada.
NOTA OFICIAL DA POLÍCIA CIVIL
“A Delegacia Seccional de Polícia de Avaré, por meio da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Avaré, informa que as investigações sobre o homicídio de Jennifer Eduarda da Cruz Blimblem continuam em andamento. A Polícia Civil reafirma seu compromisso com o esclarecimento dos fatos e ressalta que eventuais novidades sobre o caso serão comunicadas oportunamente à imprensa, de forma transparente e responsável”.
RELEMBRE O CASO
Conforme o registro da Polícia Civil, Jennifer Eduarda da Cruz Blimblem foi vista pela última vez no dia 24 de setembro de 2021, mas a família só registrou um boletim de ocorrência de desaparecimento após quatro dias. No dia 30 de setembro daquele ano, um corpo em avançado estado de decomposição foi encontrado.
Equipes policiais foram acionadas até o ponto onde Jennifer foi encontrada depois que o dono da propriedade rural percebeu a presença de urubus e outras aves. O homem encontrou o corpo e acionou a Polícia Militar.
Ainda conforme o BO, o corpo da jovem estava sem roupas, em estado avançado de decomposição e com várias perfurações no peito e abdômen. No local, a polícia apreendeu roupas encontradas perto da vítima e mechas de cabelo na cerca da propriedade.
O corpo passou por exame necroscópico, e a vítima foi identificada no dia 1º. Ela foi enterrada na tarde do dia 2 no Cemitério Municipal de Avaré, e familiares publicaram mensagens de luto nas redes sociais.
Segundo a Polícia Civil, no dia em que desapareceu, Jennifer saiu de casa sem o celular, e o aparelho dela foi entregue pela família. A polícia informou ainda que os pais demoraram a registrar o sumiço da filha porque a jovem tinha histórico de desaparecimentos.
De acordo com parentes, o motivo da demora foi porque Jennifer havia desaparecido outras vezes em 2014, 2018 e 2020.
Quatro anos depois, ninguém foi preso por seu assassinato.









