Uma sequência de relatos de familiares e pacientes aponta para um padrão de atendimento questionável no principal serviço de emergência da cidade. Secretaria de Saúde não se manifestou.
A morte da jovem Maria Clara Paz, de 17 anos, na noite de quarta-feira (27), não é um episódio isolado. Ela se tornou o símbolo de uma crise que há meses gera reclamações, desabafos e luto em famílias de Avaré, que apontam para uma suposta negligência médica no Pronto-Socorro Municipal. O caso, envolto em dor e indignação, levou a família a registrar um boletim de ocorrência nesta quinta-feira (28).
A Agonia de Maria Clara: Uma Jornada de Idas e Vindas
De acordo com informações apuradas pelo A Voz do Vale e relatos da família, o calvário de Maria Clara se estendeu por semanas. Ela lutava contra sintomas de pressão alta, fortes dores de cabeça e ânsias de vômito. Repetidamente, sua família buscou auxílio no PS Municipal, mas a resposta era sempre a mesma: a jovem era medicada com sintomáticos e liberada, sem uma investigação mais aprofundada de sua condição.
Entre os dias 24 e 26 de agosto, a história se repetiu. Na quarta-feira (27), porém, o quadro era ainda mais alarmante. Maria Clara havia passado a noite em claro, vomitando e com intensa cefaleia. Desta vez, um médico solicitou uma tomografia. O exame, segundo relato da mãe em um áudio enviado a uma amiga, não teria acusado alterações. Apesar disso, os vômitos persistiam.
A mãe relatou que o médico confirmou que a jovem teve convulsões e, mesmo assim, foi liberada. A prescrição médica incluiu um medicamento para convulsão, emagrecimento e enxaqueca, que custou R$ 90,00 à família. Maria Clara foi para casa, mas seu estado não melhorou.
Na noite de quarta-feira, o quadro se deteriorou rapidamente. Ela foi levada de volta ao Pronto-Socorro pelo SAMU, mas não resistiu. Sua morte foi registrada por volta das 19h30. O corpo foi encaminhado para a UNESP de Botucatu para realização de necropsia, que determinará a causa oficial da morte, e depois para o Instituto Médico Legal (IML) de Avaré.
O corpo da jovem está sendo velado no Velório Municipal, e o sepultamento está marcado para esta sexta-feira (29), às 8 horas, no Cemitério Municipal.
Indignação nas Redes Sociais
A notícia da morte de Maria Clara gerou uma imensa comoção e um coro de indignação nas redes sociais, onde outros casos semelhantes vieram à tona.
A internauta Priscila Bexiga resumiu o sentimento coletivo em uma publicação contundente: “Mais uma negligência médica tirando mais uma vida? Até quando isso? Cadê os vereadores pra irem naquele matadouro?”, questionou.
O relato de Arlete Castro, colega de trabalho da mãe de Maria Clara, trouxe a dimensão humana da tragédia. “A mãe da adolescente trabalha comigo, faz quase dez dias indo e voltando do OS. Estamos chocados no nosso serviço quando ela ligou em prantos e me disse ‘minha filha morreu’”, desabafou.
Os comentários se transformaram em um espaço de luto coletivo e de cobrança por responsabilidade, com muitos moradores questionando a atuação da empresa terceirizada Hera Serviços Médicos Ltda. e a fiscalização do poder público municipal.
Outros Casos: Um Padrão que se Repete
O caso de Maria Clara ecoa relatos recentes de outros munícipes que se sentiram negligenciados pelo mesmo serviço.
- O Caso da Filha de Priscila Bexiga (15 de agosto): A própria Priscila, que manifestou revolta pela morte de Maria, havia vivido um drama similar com sua filha, que sofria de fortes dores abdominais. Ela relatou que, após suspeita de apendicite, nenhum exame complementar foi pedido. Dias depois, outro médico diagnosticou uma “inflamação grave na bexiga”, confirmando, na visão da mãe, a demora no diagnóstico e o tratamento inadequado.
- O Caso da Mãe de Gabriel Fogaça (6 de agosto): Num desabafo emocionado, Gabriel narrou a perda de sua mãe. Ele contou que ela foi diversas vezes ao PS com dores abdominais e vômitos, sendo liberada repetidamente com diagnósticos superficiais. Quando finalmente transferida para a Santa Casa, descobriu-se que seu intestino estava perfurado há quatro dias. Submetida a uma cirurgia de urgência, ela não resistiu a uma infecção bacteriana generalizada e faleceu no dia 1º de agosto. Gabriel questionou a falta de exames mais detalhados nas primeiras consultas.
A Cobrança por Apuração
A insatisfação popular já havia chegado à Câmara Municipal. No dia 8 de abril, o vereador Hidalgo de Freitas (PSD) cobrou explicações formais da Hera Serviços Médicos Ltda. sobre as reclamações referentes à qualidade do atendimento. O parlamentar citou especificamente a morte de um adolescente de 15 anos em fevereiro, exigindo apuração rigorosa.
“Nós não podemos ser covardes diante de publicações como essas. É inaceitável que um relato dessa natureza fique sem apuração pela empresa. Peço que ela seja notificada para que toda denúncia seja investigada”, afirmou Hidalgo na tribuna.
OUTRO LADO – A reportagem entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde, por meio do setor de Comunicação da Prefeitura de Avaré, para solicitar um posicionamento oficial sobre o caso de Maria Clara e as demais denúncias. Até o momento da publicação desta matéria, o Executivo municipal não se manifestou.
A comunidade de Avaré aguarda respostas concretas e ações efetivas para que tragédias como a de Maria Clara da Paz não se repitam.









