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O ano era 2000. Na cidade de Cerqueira César, uma criança de apenas 9 anos via sua infância ser interrompida pelo homem que deveria representar sua fé. Hoje, passados quase 26 anos do fato, Maikon Daniel não é mais aquela criança indefesa, mas as marcas do abuso cometido pelo Padre Antonio Fábio Rodrigues dos Santos Zamberlan ainda ditam o ritmo de suas noites sem sono.
O caso, que tramita há mais de duas décadas no Judiciário, está próximo de um novo desfecho. O A Voz do Vale teve acesso exclusivo ao processo e confirmou que o recurso está pautado para julgamento no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em fevereiro de 2026.
O Crime e a Condenação
O Padre Antonio Fábio foi condenado a seis anos de reclusão em regime fechado por atentado violento ao pudor em primeira instância. Segundo a denúncia, o crime ocorreu em março de 2000, em uma chácara na zona rural de Cerqueira César. Mediante violência presumida, o sacerdote teria obrigado o menor a praticar atos libidinosos.
Na época, o padre tentou politizar o crime, alegando ser vítima de uma perseguição após obter 80% dos votos da cidade em uma candidatura a deputado estadual. A tese foi rejeitada pelo TJ/SP em 2005, quando analisou o primeiro recurso. Além da pena de prisão, o réu foi condenado a pagar uma indenização de R$ 207 mil, valor confirmado pelo STJ em 2018, que também decidiu que o pagamento é de responsabilidade exclusiva do padre, isentando a Arquidiocese de Botucatu.
Passados quase 26 anos do crime e 20 anos da sentença, o padre não cumpriu a pena e a indenização jamais foi paga.
Agora, um novo capítulo decisivo se aproxima: um recurso deve ser julgado em fevereiro de 2026 no Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília. Para Maikon, é mais uma etapa numa maratona jurídica que consome sua vida adulta. “Você vê a sensação de injustiça. Se passaram 26 anos [desde o início do abuso], eu tinha 9 anos, hoje eu estou com 37 anos”, desabafa, no início da conversa.
O Crime: A Inocência Perdida no Sítio
Em entrevista exclusiva concedida ao A Voz do Vale, Maikon relembra com clareza angustiante o dia em que sua infância foi roubada. Ele relatou que estava em uma praça com amigos, quando foram convidados a ir ao sítio com a promessa de colher frutas. “Eu estava na praça com meus amigos e fomos convidados por ele para nos levar ao sitio perto da escola agrícola. Chegando lá eu já estranhei tudo, vi que as laranjas estavam verdes, não tinha fruta nenhuma”, conta. A convite do religioso, entrou em um quarto. “Ele me chamou no quarto lá, e abaixou meus shorts, chupou meu pênis, tentou me beijar, só que foi em questão de segundos”.
O menino, em pânico, argumentou que queria ir ao banheiro e disse que queria ir embora. Foi quando o padre revelou seu temor. “Ele já começou a implorar para mim não contar para ninguém (…), ele já sabia que ali tinha se encerrado, que ali eu ia expor ele. Jamais tinha praticado uma coisa dessa. Foi a primeira e última vez que eu acreditei num líder religioso”.
A cena seguinte é descrita por ele como a síntese da hipocrisia: “Depois que ele cometeu esse ato comigo, ele me deixou lá na praça, e entrou para dentro da igreja, ele vestiu a batina e foi rezar uma missa”.
O Inferno Pós-Abuso: Fuga, Ameaças e Desestruturação
A denúncia, longe de trazer alívio, mergulhou a família no inferno. “Na época… a gente foi muito perseguido. Tivemos que mudar de Cerqueira César, fomos para Piraju, de Piraju para Sarutaiá”, relata Maikon. O fanatismo religioso se voltou contra eles. Em Sarutaiá, a perseguição chegou ao ápice com uma ameaça de morte. “Tinha um dia que era mais ou menos umas 2 horas da manhã… tacaram uma pedra com uma carta escrita com letra de jornais, recortadas: ‘vocês vão morrer’”.
Na escola, o bullying era cruel. “Me chamavam de bispo do padre, davam risada de mim, me bateram. Os meninos lá que me bateram falaram que eu sequei a fonte deles, porque eles saiam com o padre e ganhavam dinheiro”. A pressão foi tanta que desintegrou sua família. “Houve separação da minha mãe com o meu padrasto, diante dos boatos e da vergonha… que desestruturou a minha família”.
A Espiral de Autodestruição e a Luta para se Reerguer
Sem amparo e traumatizado, Maikon encontrou refúgio nas piores escolhas. “Eu não quis saber mais de religião, caí no mundo das drogas, me tornei alcoólatra com 12 anos de idade”. Sua saúde mental ficou profundamente abalada. “Desde quando isso aconteceu, eu sofro com ansiedade, eu só durmo com remédios e a minha vida não foi normal mais”. Ele relembra: “Com 12 anos eu já bebia cachaça, comecei a fumar maconha, e eram coisas que eu não gostava”.
Hoje, casado novamente e pai de três filhos em Minas Gerais, ele luta para manter o equilíbrio. “Minha vida, se eu for te contar, é uma coisa de doido. Eu passo 2, 3 noites acordado, daí a hora que o meu corpo baqueia mesmo, aí eu durmo”. Ele faz questão de quebrar um estigma: “Uma coisa que eu queria deixar bem claro… o abusado não se torna um abusador, nem todo abusado se torna um abusador”.
A Batalha Jurídica: Advogados, Promessas e o Recurso no STJ
O caminho até a condenação foi árduo. O padre, segundo Maikon, tentou inverter a situação. “Ele nos acusou de questões políticas… tentou argumentar que minha mãe e eu… fomos pagos para acusar ele”. A batalha nos tribunais, mesmo após a sentença favorável, foi marcada por frustrações. A primeira advogada, a doutora Sueli, faleceu de Covid. Dois outros fizeram promessas vãs. “Colocaram na minha cabeça que eu receberia a indenização em seis meses… falaram para mim que ia mandar até uma carta para o Papa… mas foi tudo conversa”. O caso está agora com um advogado de Governador Valadares (MG).
A lembrança da audiência de 2010 ainda corta como uma faca. “Eu lembro dessa audiência… onde foi sentenciado ele me pagar a indenização, ele riu da minha cara”.
A Esperança (ou a Falta Dela) em 2026
Com o recurso marcado para o STJ no próximo ano, Maikon tenta manter expectativas sob controle. “Não que o dinheiro vai pagar, que essa indenização vai pagar (tudo que passei)… mas pode amenizar os danos causados”. Ele enumera as perdas: “Porque eu não consegui me formar em nada, eu não consegui ter cabeça para estudar, eu não consegui ser alguém na vida. Eu me perdi diante dessa situação”.
Sua fala é um retrato cruel de um sistema que, ao protelar a justiça, perpetua a violência. “Foi terrível, porque até a minha própria família mesmo, meu tio, meu padrasto, me condenaram muito por isso. Disseram que eu devia ter ficado quieto, que eu devia ter ficado calado”. Contudo, ele ressalta: “Mas minha mãe guerreira, viva até hoje, não aceitou essa situação”.
Enquanto aguarda fevereiro de 2026, Maikon Daniel segue sua vida, carregando o peso de uma infância perdida e a cicatriz de uma justiça que, há 26 anos, teima em não chegar.
Recentemente utilizou as redes sociais para clamar por justiça. “Pessoal, quem lembra do padre Fábio Zamberlan que cometeu o ato de pedofilia em Cerqueira César? Então, a vítima fui eu e eu tinha 9 anos e até agora a justiça lenta e repugnante não fez absolutamente nada e ele tá solto e levando uma vida estável”, publicou no dia 29 de dezembro. A postagem gerou grande repercussão.
A reportagem não localizou o Padre Antonio Fábio Rodrigues dos Santos Zamberlan para comentar o caso, mas mantém o espaço aberto para que sua defesa apresente sua versão dos fatos.








